- Nº 1929 (2010/11/18)
Próximo livro da Biblioteca Avante!

<i>A Última Mulher e o Próximo Combate</i>

PCP

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«A Revolução não anda com meias-tintas. Vai haver mudanças. Tem que haver.» Será a grande mudança revolucionária mudar o nome de uma região de Frente La O para Frente Félix López? Apesar de ser apenas um acto simbólico havia um profundo significado político. Alejandro La O era um grande proprietário agrário, «homem mau, mau de verdade», que destruía a floresta para fazer pastos, que se associava ao exército de Fulgencio Batista para reprimir os trabalhadores e que abusava das mulheres. Representava o poder deposto com a Revolução Cubana iniciada em 1959, que se fez (e faz) «para que aqueles que nada possuem possam viver melhor».

Bruno, a personagem principal de A Última Mulher e o Próximo Combate, de Manuel Cofiño (que sairá com a próxima edição do Avante!) é enviado de Havana para uma região remota da ilha de Cuba para levar a cabo um plano de desenvolvimento florestal. Contudo, vai encontrar diversas resistências por parte dos camponeses, que olham com a desconfiança injectada pelos contra-revolucionários e facilitada pelos oportunistas. A obra retrata assim os primeiros tempos da construção do socialismo. Aqui trata-se do exercício do poder, dos problemas que se colocam aos revolucionários no contacto com as pessoas de classes e camadas politicamente mais recuadas. Mas também o amor e o trabalho, o ódio e a mesquinhez, a beleza dos mitos e a dureza da realidade.

Não sabemos se Manuel Cofiño, quando publicou este livro em 1971, conheceria a obra Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro, publicada pouco mais de dez anos antes. O fundo de ambas as obras acaba por ser próximo, mas a abordagem é toda outra. Na execução do plano florestal em Portugal, durante o fascismo, não se hesita em usar-se o aparelho repressivo para carregar sobre os camponeses. Na Cuba socialista, a «coisa está em trabalhar com eles [os camponeses] no campo, conviver com eles, respeitá-los, manter sempre a dignidade dum revolucionário, obter deles o respeito e a confiança. A partir daí as pessoas respondem sempre quando a Revolução as chama e quando se lhe explicam os problemas são capazes de compreender e de ajudar». Grande parte deste livro resulta da experiência de Manuel Cofiño que foi, ele próprio, enviado em 1968 como director do plano florestal na província de Pinar del Río, no extremo ocidental da ilha de Cuba.

Manuel Cofiño é um dos principais autores cubanos do século XX. Além de A Última Mulher e o Próximo Combate, com que venceu o prémio Casa de las Américas, publicou outros romances e vários contos, tendo como tema principal a transformação social, pois não acreditava numa literatura que se desligava da vida concreta, dando sempre grande destaque às personagens femininas. Participou intensamente na vida política cubana, sendo até à sua morte em 1987 dirigente da União dos Escritores e Artistas de Cuba. Manteve-se fiel à revolução como Bruno, nunca atraiçoando o indivíduo, «pois só preocupando-nos com ele é que poderemos construir o verdadeiro socialismo, aquele que não está nas palavras de ordem nem nos manuais».